“Sertão é dentro da gente” – Guimarães Rosa
“Uma boa escrita imita a boa arte das lavadeiras de roupa. Carece de bater na pedra e enxugar o pano, uma, duas, três vezes, até levá-lo ao varal quase sem água. Escrever é secar ao sol.” – Graciliano Ramos
Mais de dois meses sem chuva. A terra sente, virgem desprezada que cultiva mágoa, que guarda rancor. Rachada, trincada, ressecada, estéril, sem viço, sem cor.
Suados de desespero, tentamos continuar nossas atividades rotineiras, como se superiores fôssemos às intempéries.
Também estamos secos. A pele teima em permanecer áspera, os olhos sensíveis como se nunca mais conseguissem chorar, a garganta arranha, tomada de pó, como se nunca mais pudéssemos dizer verdades.
A secura também é interior. Cada vez mais áridos. Indiferentes à dor do outro, às crianças nos sinais, aos animais abandonados, às injustiças, às desigualdades. Sufocados pela areia fina do tempo, enterrados vivos no deserto imenso, do tamanho do mundo, de nós mesmos.
Nada nos deixa suficientemente úmidos. Não há aparelho, balde de água pela casa nem toalha molhada que dê jeito.
“O sertão é uma espera enorme”, disse Guimarães Rosa. Espera-se em prece, em contar as horas, olhando para o céu, tecendo comentários banais. Uma brisa é um presságio, um sinal de que ainda não perecemos.
Espera-se tentando esquecer o motivo. E assim esperamos pela chuva, para tornar a terra novamente verde e fértil, para lavar a alma de quem quiser e estiver pronto, tirar a poeira dos olhos e do coração.
Esperamos por dias melhores. Esperamos pela Primavera.

Nenhum comentário:
Postar um comentário